letra de 2034: uma odisseia no vácuo - todos os sonhos
abertura [willi ribeiro]
a arte desperta e há quem ousa dormir (2x)
entre sonos e sonhos, antes viver mesmo com tombos
na tumba os corvos anseiam por carne podre
do que adiantam as flores!?
a essência vai à falência por prata, ouro ou cobre
e eu pobre vagueio…
sem medo de olhar o monstro que aparece no espelho
que sa foda a perfeição!
eu prefiro ser eu mesmo
abraço o ermo para domesticar meu inferno
mais um dia, mais um sol para a vida
mais um dedo na ferida
sem filtros de uma fotografia publicada, simplesmente…
“dei”…
o beijo de minha amada
eles apontam armas
eu só tenho poesia como resposta
griot urbano!
essa vida de sonhador faz-me carregar um peso nas costas
a leveza nasce diante do microfone
ou de um ouvido onde a palavra pousa
acto i
entre trombetas eucarísticas do vale mais profundo (2x)
jaz ainda a sinfonia mais limpa do rap sujo
a nostalgia futurística que eu exumo
com arpejos simplistas gero baladas pra o submundo
sempre por terapia, sem anseios de kids
nem por megalomania ou ter adeptos de bigs
submersa e alternativa não incito rectos pra hits
propalo a eurritmia, excito grelos em beats
não basta a rima, há que fazer senti-la
por mais que minimalista se vier de dentro então exprima
como a espectromania invista na escrita onírica
seja alma que cativa aceita o imo de morfia
escape do esplêndido e vide novas nuances
transcende o arquétipo e crie o singular antes
enreda, o egotripping é tão vulgar
énfase ao épico, rime episódios milenares
(…)
acto ii
despertei no asfalto. sangue e poeira no pulmão
os céus choraram por mim, mas negaram minha redenção
a morte já me tocou, não suportou, largou minha mão
deixou marcas sobre minha pele, mas não levou meu coração
no véu tênue entre o agora, depois e o nunca mais
onde a luz vacila e oscila e a eternidade jaz em paz
sinto o frio de mil eras num só segundo e no transe
meu fôlego moribundo deixando a vida pra trás
suratas se transformaram nessa preciosa espada
cortando os véus que mantinham minha visão deturpada
cada suspiro no agora é mais uma chance emprestada
mas viver sabendo disso é uma jornada amaldiçoada
(…)
agora ando entre os vivos como uma sombra perdida
um mártir sem glória, fundido a uma causa não definida
mas sigo com o testemunho gravado na minha retina
sabendo que do outro lado não há existência divina
(…)
acto iii
entre as sombras dos prédios, lampejos de véus de concreto
letras em eco se quebram em cacos nos becos de espectros
nas paredes da sala do tempo escrevo em código morse a medo
cada batida de coração é um verso, um bremo em segredo
filho de gaza, al-quds, da poeira, da mente
num limbo em constante suspense onde o fim é latente
e voo em pedaços dispersos atirados ao vento
onde a dúvida é mestre e a certeza nem mero intento
cada esquina é um quadro embaçado, manchado de vozes
onde falo com o eco de passos que voltam ferozes
navego na pneumo-trilha que assopra os destroços
e em cada palavra que falo esculpo mil novos rostos
(…)
enquanto o relógio derrete, eu vejo o destino em mosaico
trajado de preto e uma foice para o meu final trágico
entre sussurros antigos que ecoam no vórtice laico
não vejo um pingo na existência que me associe aos terráqueos
(…)
acto iv
herdeiro da insanidade, coroo o terror em realeza
mestre da ironia com sarcasmo em prosa, que beleza
cada linha um enorme punhal que apunhala a consciência
soterrado no underground como cadáveres sem clemência
engulo demónios para cuspir fogo e rima densa
o caos é meu palco onde a desordem dança em sentença
(…)
autista no seu mais íntimo, sou minha própria plateia
assombro as sombras, resplandeço onde o sol não atravessa
flutuo entre dimensões, lanço encantos nos versos
a ironia está no facto de que gravito um universo imerso
terror profano pulsando, horror é meu filamento
imprimo retratos sombrios no espelho do teu tormento
vilania entrelaçada nos laços da mente insana
comédia negra, sorrisos que dançam em volta da chama
cirúrgica métrica com precisão de pinça insana
sura do caos escrita em criptos complexos desta alma islâmica
(…)
acto v
meu dna escreve poesia no idioma de corvos
traduções ocultas sob o véu de hieróglifos torvos
sigo complexo, vocês leigos para interpretar o óbvio
na névoa da dúvida só a salah minha essência devolve
anomalia sem género, gargalhadas no pranto
onde diagnósticos falham mistérios brotam do canto
disseco devaneios em placas de vidros rachados
que refletem sonhos em espelhos de úteros maculados
roteirista de infernos, cenas com enquadramento trágico
filho do estupro de uma mulher num quarto do pânico
atormento com meus traumas de infância a mente do diabo
e ajudo o vinnie a enforcar a besta com o seu rosário
espelho quebrado, os pedaços se olham em réplicas tortas
meus versos aliados de allah contra as trilhas na horda
com acordes corânicos reverto almas absortas
entre mundanos, ar-raheen livrai-me das sombras
(…)
acto vi
cago pra espectro político, não que eu seja arbitrário
cago pra quem marchas meu cântico é sedentário
anarco-individualista ajo como voluntário
não faço serviços públicos meu foco libertário
revolta de atlas, ayn rand no rap
contra foices e martelos e sósias do grande keidje
(espera)
que se foda o cage e a parva da elisabeth
undeground só tem caída entre os cabrões da ls
fundo jazz e matemática e armo um tubo do ensaio
e o resultado é um pro caralho a quem tocar meu som na rádio
trago a audácia de um cacto erecto pro teu ânus
fodo a crítica, minha ética é niilista e matafracos
é relatório, existência, reacção records, dbc
mp crew, terceira divisão e tiranicídios
kénia tu ainda vives, pois o underground vive
imortal como aline, que se foda o mainstream
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